Quer pagar quanto?

Estava quase finalizando os sessenta quilômetros planejados. O meio dia havia ficado para trás, bem como os vilarejos presentes no roteiro. Neste último pretendia almoçar e continuar. Não havia sol, tempo estava encoberto, abafado. Início da primavera. Naquelas regiões as chuvas tornam-se constantes, volumosas. Nuvens baixas, esperando seu momento para despejar cascatas sobre todo aquele vasto cenário. Calor, muito calor. Nestas condições perdemos líquidos de uma maneira tão visível quanto a natureza ao redor. A pele torna-se brilhante e úmida. O corpo tenta se adequar eliminando todo o calor gerado nas pedaladas. Energia pura, transformação, uma máquina tentando se auto-regular. Para alguns, superação, outros, pura tortura. Água, única substância que pode alentar uma ânsia insana.

Procurei. Dois quarteirões para cá e vire um para lá. Achei! O lugar não apresentava muita sofisticação. Um salão com seus cartazes e faixas de promoção de cervejas. Mulheres exuberantes e seminuas tentando passar a impressão de que estariam presentes também. Tem água? Sim, respondeu uma moça. Está gelada? Como? Está gelada? Perguntei novamente. Gelada! Um rapaz carregava cadeiras. Uma festa talvez. Veio até mim uma garrafa de um litro e meio. Geladíssima. Encontrou uma boca sedenta e louca para saboreá-la. A vontade era tanta que dei um daqueles goles em que certa quantidade cai molhando a camiseta.

A moça me olhava. Reparei que estava grávida. Chocou-me vê-la fumando. Curiosa, perguntou de onde eu vinha, o que estava fazendo e onde pretendia chegar. O rapaz, também interessado se aproximou. Foi quando ouvi a inspiração para este texto: quanto você ganha para fazer isso? Parênteses…

Ao sul de Minas Gerais encontra-se a Serra da Canastra. Um Parque Nacional repleto de belezas e que guarda a nascente do Rio são Francisco. Nesta região acontece a “traição”, registrada como uma tradição do lugar. Funciona assim: vizinhos de sítios e fazendas reúnem-se com o objetivo de ajudar um colega; planejam tudo, das ferramentas à comida do dia. Tudo sem o felizardo saber. Na data combinado, ainda de madrugada chegam de surpresa, na maior arruaça, soltando fogos e acordando todos no susto. Passam o dia consertando, construindo, roçando e fazendo o que for necessário para dar um jeito no lugar. A traição está no fato do proprietário não ser avisado. Fica com o compromisso de puxar a próxima. Tudo isso sem nenhum interesse, apenas pelo prazer de ver o mutirão funcionando e satisfazendo necessidades que, se pagas ficariam caras.

Então, quanto eles ganham para fazer isso? Nada! Traem com o maior prazer, sem nada em troca. Eu? Para pedalar ganho nada! Tenho o prazer de passar por estes lugares e descobrir suas nuances, histórias e particulares. Tirar fotos que me inspiram e trazem futuro. Vivo situações que mostram os lados da vida. Feios, doces, tranqüilos e maldosos. Comprovo o que muitos escreveram, viveram e transpassaram.

Acho que esta relação estabelecida não é sadia. Fazer para ganhar. Ou é competitiva demais, ou coloca o papel acima das relações humanas. Quanto você ganha para fazer o que gosta, o que te dá prazer, o que acredita como verdadeiro?

O que? Você inda ganha para isso? Felizardo!

Giuseppe Ricardo Passarini.

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Uma resposta para Quer pagar quanto?

  1. Gledson disse:

    Me fez lembrar do meu subúrbio carioca. Do famoso “bater laje”. Onde a vizinhança se reúne para pôr bater o concreto e jogar na laje.
    O único pagamento é um almoço pesado (feijoada, churrasco…) para que tenham energia e o compromisso de ajudar os outros na próxima laje.
    É isso aí! Relações sadias de troca, sem um lucrar mais que o outro.
    Seria este o verdadeiro socialismo?

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