Pele grossa.

Os elefantes são animais paquidérmicos. Vivem em bandos organizados, com várias “famílias” agrupadas. Sua hierarquia se caracteriza como matriarcal. Nômades. Na escassez as fêmeas sabem onde procurar água e comida, mesmo a quilômetros de distância. Guardam as informações na memória. As “mães”, durante o deslocamento, não se movimentam como adultas, mas sim estabelecem o ritmo em relação ao desempenho dos filhotes. Logo, a jornada tem a velocidade do bebê mais novo da manada. Quando encontram uma ossada de outro da sua espécie (e reconhecem isso imediatamente) realizam quase que um ritual, agitando-se, rodeando e cheirando os restos mortais até quando consideram suficiente. E não adianta tentar afastá-los dali. Impossível. Permanecem o tempo que acharem necessário. Podem viver até setenta anos e, no momento que sentem o fim da vida, afastam-se e encerram seu “caminho” solitários, como outros seres vivos.

Seu Mitsuhisa Shoji entende muito de elefantes. Como ele mesmo disse, tem mais de trezentos. Optou por colecionar miniaturas pela inconveniência dos reais. Espaço e quantidade de comida foram os fatores limitantes. Disse que se interessou pela curiosidade, elegeu o tema e foi fundo. Mas poderia ser focas, orquídeas, cartas ou mesmo mapas do século XVII. Não importa. O que fascina em seu Shoji é a história por de trás, o conhecimento escondido, as descobertas realizadas. Fala carinhosamente desses animais enormes, detalha com rigor científico o que acredita ser importante. Compartilha prazerosamente tudo que sabe.

Saramago, com seu jeito peculiar, em seu livro “História do cerco de Lisboa” afirma que “… tudo quanto não for vida é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, querer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, ora a pintura não é mais que a literatura feita com pincéis, Espero que não estejas esquecido que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tens cão caça com gato, por outras palavras, quem não pode escrever pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças, O que você quer dizer, por outras palavras , é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já era…”

Somos acomodados quanto à curiosidade. Assumimos uma postura altiva e preconceituosa sobre os assuntos que nos cercam. Julgamos muito pela aparência e superficialidade. Buscamos facilidade no conhecimento e entendimento de algo misterioso. Lavoisier afirmava que a curiosidade é o primeiro passo para o conhecimento. Sem curiosidade somos ignorantes. Sócrates afirmava também “Só sei que nada sei”. Fantástico, melhor método de aprender não existe!

Estáticos e presos a uma rotina estabelecida e estressante, deixamos oportunidades passarem como vento de agosto. Priorizamos assuntos que talvez não teriam tanta importância. Não que devemos saber tudo de elefantes. Será que estudamos, lemos, assistimos, escrevemos sobre aquilo que gostaríamos? Será que nos aprofundamos em assuntos que nos dão prazer? Ou simplesmente nos deixamos levar por modismos, consumo e preguiça?

Minha esposa retornou recentemente à bicicleta. Claro, ajustada à nova dinâmica dos equipamentos e dos limites de seu corpo sorriu, ofegou, correu e sentiu o vento no rosto da mesma forma quando era criança. Foram anos distante de seus prazeres e desafios. É bem provável que sua última pedalada tenha sido na pré-adolescência. Neste período ouviu muita coisa sobre “pedalar”. Informações superficiais e histórias distantes de sua realidade fizeram com que se afastasse do assunto. Mitos e insegurança permaneceram por muito tempo em seus pensamentos. Se deixasse levar pelo dia-a-dia, as chances de ouvir coisas boas sobre a bicicleta seriam mínimas. Vendo-me “estudar” sobre elefantes de duas rodas, interessou-se novamente e descobriu muita coisa boa.

Seu Shoji, seu Antônio, dona Vanda, Ana, Pedro e Maria estão certos de elegerem um assunto e dedicarem sua curiosidade.
Mergulham fundo e, no mínimo descobrem que suas cabeças ainda funcionam muito bem apesar do descarte pregado pela nossa sociedade. Beneficiam-se conhecendo outras pessoas e entendendo as relações íntimas entre tudo que existe.

Por que não estudar sobre tampinhas de garrafas, flores, artistas, doenças, músicas ou o que mais lhe chamar a atenção? Mas faça com prazer e com humildade para aceitar que nada sabe. Afinal, trezentos elefantes não aparecem em uma estante da noite para o dia.

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