Essa é uma história triste.

“Dizem que o que procuramos é um sentido para a vida. Penso que o que procuramos são experiências que nos façam sentir que estamos vivos.”
Joseph Campbell

Quando pensamos em desafios, podemos imaginar inúmeras coisas. No esporte, no trabalho, nos estudos. Cada qual com suas peculiaridades. A quebra de um recorde, ou mesmo a melhora de uma marca, uma distância maior, mais fundo, mais rápido, mais alto. Uma promoção, uma venda, um novo emprego. Qualificar-se mais, estudar para determinada avaliação, aprender um novo idioma.
Em todos os casos, tudo é planejado pensando em detalhes como datas, custos, envolvidos, necessidades. Inclusive esta é uma característica essencialmente humana. Projetar é exclusivamente nosso. Animais simplesmente vivem, ou sobrevivem. Não modificam o ambiente ao seu favor, não passam conhecimentos por gerações senão de forma genética. Pensar em como será, batalhar para que tudo corra dentro do que foi acordado. Mas percebem que fomos nós que criamos? Fatores externos, quase sempre são impostos por nós mesmos. Pensamos, analisamos e decidimos que vamos em frente. Para a grande maioria a escolha é pessoal.

Em nossa primeira gravidez, planejamos tudo. Quarto do bebê, enxoval, banheiro, pintura e o futuro pela frente. Ansiosos e orgulhosos como todos os primeiros pais. Estávamos seguros e confiantes de que tudo daria certo. Inclusive esta foi uma frase que me marcou muito! Roupas, mimos, fotos, conforto e planos. Tudo projetado, pensado e imaginado nos mínimos detalhes. E, sem sombra de dúvida um enorme desafio pela frente. Escolher as roupas quando sair, que fralda usar, aquela pomadinha. Quando ele crescer, que escola freqüentar? Que religião vai seguir? Nossa obra estava apresentando todas as nuances que a grande e maravilhosa aventura de sermos pais pode proporcionar. Ele se chamaria Bernardo.

Entretanto, um desafio nos foi imposto. Ele nasceu com um gravíssimo problema, fruto de uma “anóxia intra-uterina”. Que nome feio para uma coisa que tira o chão sob nossos pés. Era o ano de 2008 e tivemos que conviver com uma rotina pouco comum, mas real e dura, muito dura. A luta pela vida é algo que muitas vezes transcende nossa compreensão. Decidir sobre sua continuidade, sobre como ela será fora dos trilhos normais. Saber que existem outros em melhor ou pior situação nos faz ver o mundo de forma diferente. Nos torna humanos no sentido real da palavra. Particularmente passei a não ver mais direção no dia a dia. Apenas observava que existe somente um objetivo, apenas a manutenção.

Bernardo vem do germânico, da junção de “ber” que significa “urso” com “hard” que vem a ser forte, duro, valente… BerHard, Urso Forte! Em uma sexta feira, dia cinco de setembro de 2008 meu filho se foi. Foram sete meses de muita luta, esperança, conflitos e medos. Digo que ele viveu estes sete meses intensamente. Do seu jeito, colocou desafios que jamais pensaria que iria enfrentar. Mexeu muito com nossas vidas direta ou indiretamente. Após alguns dias me dei conta da dimensão que o nosso problema tomou, do tamanho da rede de solidariedade que se formou para nos apoiar, nos confortar. Eu e a Sara conseguimos lidar com tudo com muita paz, não esquecendo a dura realidade e de nossa responsabilidade como pais. Vocês não imaginam o que passou pela nossa cabeça nestes sete meses de luta. Mas nos mantivemos firmes e conseguimos dar todas as condições necessárias para que o Bernardo vivesse com dignidade e sem sofrimento. Entretanto, infelizmente algumas apostas nós perdemos. Alguns desafios não conseguimos transpor. Não nos arrependemos de nada e estávamos totalmente conscientes da dureza e responsabilidade de nosso papel.

Neste período conhecemos pessoas maravilhosas, descobrimos qualidades imensas nos seres humanos que já convivíamos e nos que passamos a nos relacionar. Foram experiências grandiosas, que demonstram o quanto a humanidade (sentimento) faz a diferença nas adversidades. Gostaria de retribuir tudo a todos, mas sei da impossibilidade de fazer isso sozinho e ainda para um número tão grande de pessoas. Nosso filho nasceu, lindo, querido e desejado, mas infelizmente nunca consegui trazê-lo para casa, niná-lo, fazê-lo dormir. Se eu o peguei no colo duas vezes foi muito. Seu quarto esteve sempre pronto, arrumado na esperança de confortá-lo. Mas, mesmo assim, na escassez do dia-a-dia me senti mais pai do que nunca. Fiz o papel que me cabia. Não aceito e não aceitarei nunca o que aconteceu. Questiono sempre, mas contra a grandiosidade da natureza somos muito pequenos e nosso poder é limitado.

Para manter meu equilíbrio e continuar meu caminho de forma humana, correta e digna escolhi a bicicleta. E, pensando na frase do início… Sintam frio, calor, fome e saciedade, sintam medo e conforto, sintam esperança e desespero, sintam dor e alívio, enfim sintam que estão vivos… Sintam a vida correndo por dentro de vocês… Sintam o quão breve é nossa passagem por esse mundo maravilhoso que nos é oferecido… Sintam tesão quando realizarem algo… Usem a vida em toda sua plenitude… Amem e declarem isso para todos… Pedalem por estes cominhos de forma plena e intensa!

Giuseppe Ricardo Passarini.

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2 respostas para Essa é uma história triste.

  1. Sumaya Lima disse:

    Obrigada por isso. Obrigada mesmo. Agora me sinto pare de um mundo que pode se transformar em um lugar digno de se viver.

    • gpassarini disse:

      Sumaya, meu combustível é o comentário que recebo de cada postagem. Se sensibilizei pelo menos um, meu trabalho foi feito. Muito obrigado… Passarini.

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