Sustenta essa…


“Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante. De uma estrela que virá numa velocidade estonteante”.

No fim do ano passado por apenas dois dias, tive a oportunidade de pedalar com o Zé Renato, biólogo (Zé, você permite falar com você assim?). Foi no encontro do clube de cicloturismo, lá em Rifaina próximo de Sacramento em Minas Gerais. No pouco que convivemos, percebi o quanto ele entendia das plantas do cerrado. Olhava a vegetação e, na ponta da língua sabia para o que servia. Chá da raiz tal é relaxante. Já o daquela planta é laxante. Se estiver perto de um curral, experimente o leite da vaca com fruto desta árvore, fica com sabor de bolacha. Se parar perto de um riacho, pesque e deixe o peixe secando ao sol, assim conserva melhor.

Não posso afirmar que o Zé é um natureba ferrenho, inclusive porque convivi pouco com ele. Sei apenas que ele se vira quanto está em seu ambiente. Formado, de muito se especializou sobre a fauna e flora da região central do Brasil, inclusive porque foi criança lá. Disse-me que, em suas viagens de bicicleta, poucas vezes passou apuro com alimentação e abrigo. Os motivos: simplicidade nos atos e harmonia com o ambiente.

A mídia descobriu que sustentabilidade vende, está na moda. Viveremos mais uma rápida onda de poetas e atletas. Todo mundo quer se tornar amigo do meio ambiente. Descobriu também a bicicleta como instrumento desta marcha. Agora, se assiste a vídeos mostrando gente feliz, de todo “tipo” pedalando por um mundo melhor. Usam os refrões como se o modelo de consumo atual sucumbisse com o que os povos antigos ditavam como correto.

“E o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida. Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.

Sustentável era o índio. Harmônico, glorioso em sua interação com a natureza. Aprendemos que no dia dezenove de abril devemos pintar nossas criancinhas e colocar-lhe penas nas cabeças. Mas não as deixamos mais subirem em árvores. Comerem fruta no pé. Tratarem animais como são, não como brinquedos. Serem crianças, não pequenos adultos. Nas propagandas de sabonetes, aparecem envoltas em bolhas protetoras amparadas por suas mães. As mesmas mães que, na realidade em sua grande maioria estão ausentes, ou por necessidade de cumprirem jornadas desumanas de trabalho e cuidado com a casa, ou por pura vaidade que o consumo lhe impõe. Pais aparecem sempre felizes em seus carrões, cabelos e abdomens. Muito diferente das barrigas estressadas e das caras carrancudas causadas por cobranças de chefes e organizações tão vorazes quanto um bicho faminto. Índio! Índio não serve para nada…

Mas os índios não agiam assim. Não conheço a rotina indígena como um especialista. Meu conhecimento nesse assunto se restringe a documentários da TV. Mas observo. Uma criança indígena não ficava sem sua mãe nem por um minuto. Estas mesmas crianças se incorporavam à natureza a ponto de se confundirem com sua cor e textura. Os adultos, homens e mulheres sabiam seu papel na coletividade. Caça, pesca, plantio, arrumação da “casa”. Cuidado com os velhos. Os velhos! Fonte de todo o conhecimento da tribo. Sem eles, uma nação inteira tem problemas. Não apanhavam mais frutas do que necessitavam. Não trocavam coisas por papel “valioso”. Não perseguiam e matavam animais senão para alimentar a si e sua família. Vieram da Terra e para ela retornaram.

“Um índio preservado em pleno corpo físico. Em todo sólido, todo gás e todo líquido. Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro. Em sombra, em luz, em som magnífico.”

Os índios. Suas alegorias e histórias tratavam de coisas da Terra. Seus Deuses explicavam ao invés de cobrarem explicações. Possuíam ritos de passagem coerentes com as idades e angústias. Mas os índios não servem para nada mesmo!

E nossa sociedade tenta viver de forma sustentável? Mas mataram todos os índios! Quem poderia ensinar sustentabilidade de forma prática e com conhecimento de causa sucumbiu! Eliminaram quem poderia ajudar. Quem viveu sempre pela sustentabilidade. Sem radicalismos, sem um discurso que nos coloque na selva. Mas, que não sabemos como resolver estes problemas que criamos isso é verdade.

Mas o índio não serve para nada mesmo! Inclusive se ele dizia explicitamente, o que de forma surpreendente poderia ser o óbvio!

Passarini.

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