Um índio no Nat Geo!

O exótico depende do ponto de vista. Penso que os povos antigos nas Américas observaram os primeiros europeus viajantes como seres irreais, algo como um enviado de seu Deus. Aborígenes, no primeiro contato com colonizadores ingleses, devem ter apontado suas lanças e seus Boomerangs imediatamente à primeira vista. Um índio do Xingu, ao ver o primeiro integrante da invasão branca, provavelmente receou-se com o que observava.
As coisas se inverteram. O modo de vida “moderno”, com suas exigências de horários, de consumo e de comportamento, tornou o homem imagem de um padrão estabelecido. Viver por seus ideais, crenças e visão de mundo ficou esquecido, ou no mínimo mais difícil. Hoje mover-se, alimentar-se, amar, acompanhar, imaginar, aparentemente deve seguir algo como um padrão, de certa forma, seriado como um produto taiwanês.
Da estatística temos a moda. Superficialmente significa o que mais ocorre. Logo, estar na moda é ser igual a tantos outros. Cada um ao seu estilo, mesmo que este seja copiado por milhões.
Até bem pouco tempo atrás eu via pessoas se locomovendo pela cidade das mais diversas formas. Caminhando, em ônibus, de bicicleta, de carro também. Resolviam seus problemas diários, trabalhavam, estudavam, chegando sempre ao seu destino da forma que achassem melhor, ou que conseguissem. As distâncias eram menores, a cidade mais humana.
Ontem tiraram uma foto minha andando de bicicleta. Uma pessoa parou e me chamou de “um sujeito exótico”. Registrem: eu estava de bicicleta, voltando do trabalho, com o mínimo que uma pessoa preocupada com sua segurança deve portar – capacete e luvas; de mais “anormal”, minha bicicleta possui bolsas onde carrego coisas que necessito.
Após poucos anos, minha cidade foi tomada por um estilo de vida tão “urbano” que uma pessoa se locomovendo como muitos faziam, torna-se algo digno de se postar no YouTube, algo como um troféu de pesca ou um safári na África. Mal sabe ele que levo minha filha, também de bicicleta, à casa de sua avó. Um índio e um curumim na mesma foto! Isso deve ser enviado para a National Geografic.

No encontro nacional de cicloturismo de 2010, era estranho quem chegava de carro. O ponto de vista estava sobre o selim, alto o suficiente para podermos sentir toda a magia que um passeio de bicicleta pode proporcionar. Se você consegue prolongar esta sensação, mesmo que por poucos momentos em sua semana, indo à padaria em duas rodas ao invés de usar o carro, saiba que é um índio feliz!

Passarini.

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2 respostas para Um índio no Nat Geo!

  1. Gledson disse:

    Cara, maravilhoso texto! Cada um melhor que o outro. Acertei em cheio ao convidá-lo!

  2. odirlei disse:

    Exelente seu texto, fico contente em saber que sou um índio muito feliz rsrs

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