Rodízio? Tô fora!


“Qual o meio mais eficiente para 50 pessoas chegarem ao trabalho?”
Este é um longo artigo sobre rodízio de veículos, dinâmica de sistemas e também opiniões próprias. Foi com muita surpresa que li a matéria do Diário Catarinense – Sistema de rodízio de carros pode ser implantado em Florianópolis | Trânsito. Não só acho uma má ideia, tenho argumentos suficientes para mostrar que implantar o rodízio de veículos como foi feito há alguns anos em São Paulo é uma medida que beneficia políticos a curto prazo mas se torna um tiro no pé da população a longo prazo. Se morasse na ilha, seria um dos primeiros a contestar a ideia. De acordo com o jornal:
Segundo o diretor de operações do Ipuf, Geovanni Antonio Reis, a medida é motivada pelo rápido aumento do número de veículos em Florianópolis. De acordo com ele, a frota atual é de 251 mil carros e, a cada mês, dois mil novos automóveis são emplacados na cidade.
E aí está o problema. A forma mais simplista de tentar solucionar um problema é atacar seu efeito ao invés de focar em suas causas. Nós, brasileiros, somos mestre nisso (me incluo nesta afirmação). É o mesmo que ficar tentando tapar os buracos da cidade ao invés de desenvolver tecnologias e legislações que previnam que buracos apareçam em primeiro lugar. Além disso, o tráfego é um sistema muito mais complexo do que apenas quantidade de carros. É formado de viagens, modos, e, principalmente, pessoas, que têm os mais variados motivos para ir do ponto A ao B.
Tive a oportunidade de colaborar em um trabalho acadêmico desenvolvido há cerca de 2 anos sobre o que aconteceu com São Paulo após o rodízio ser implementado. Neste estudo, a metodologia “Systems Dynamics” (dinâmica de sistemas) foi empregada para produzir um modelo que represente, com mais variáveis, o que realmente ocorre após a implementação do rodízio por uma cidade. São variáveis que vão muito além de simplesmente comparar quantidade de veículos entrantes, como qualidade do transporte público, densidade do tráfego, dados demográficos, entre outros.
Mais importante do que números é observar como o modelo reage à introdução de ações pontuais (neste caso, políticas públicas) neste complexo sistema como um todo. Um resultado simplificado pode ser visto no gráfico abaixo, onde a linha rosa representa o número total de carros e a linha azul representa a densidade do tráfego:
Neste caso, aplicamos o “rodízio” no mês 120. A consequência imediata é uma queda abrupta na densidade do tráfego, o que faz a população ter a clara sensação de que a iniciativa é realmente eficaz. o problema é que a medida gera algumas consequências indesejadas (unintended consequences), entre elas:
Maior motivação para as pessoas saírem de casa com seus veículos: É o mesmo que ocorre nos EUA quando novas faixas de tráfego são adicionadas à grandes avenidas. A sensação de que o trânsito melhorou dá mais razões para que as pessoas façam mais viagens não obrigatórias nos dias em que podem utilizar seus veículos, o que traz de volta o problema após um curto período.
O rodízio não reduz viagens na mesma proporção que reduz veículos autorizados a circular: O supermercado que eu fazia todas as segundas-feiras, vou continuar fazendo, talvez na terça ou na quarta.
Aumento ainda maior da frota de veículos: Pergunte a uma família paulistana de classe média qual é a solução encontrada para o rodízio. Garanto que a maioria das respostas não envolve transporte público. Muitas dirão “carro do rodízio”, que nada mais é do que um carro extra, comprado para burlar (legalmente) o sistema. Além disso, o veículo “estepe” é normalmente mais velho e mais poluidor. Por ter mais um veículo, a família também tem menos recursos para atualizar os carros principais, o que também acaba promovendo impactos na economia local e no meio ambiente. Mais carros estacionados, imagine só, menos vagas, mais trânsito ainda.O grande problema vem a médio e longo prazo: mais carros, menos espaços para deslocamento e estacionamento e como consequência, piora no trânsito.
O estudo indica que em menos de uma década, no caso de São Paulo, a cidade atinge os mesmos patamares de trânsito que tinha quando o sistema foi implementado (veja o que aconteceu na prática aqui). E dessa vez, o passo já foi dado, você já tem 1/5 da frota proibidos de circular de segunda a sexta. É uma medida interessante para políticos, que tem ciclos de vida mais curtos (eleições a cada 4 anos) mas que no longo prazo é terrível para os moradores. Pergunte a quem mora em São Paulo hoje, 13 anos após a implantação da primeira versão do rodízio em 1996. As consequências vão de encontro ao motivo inicial, ao invés de reduzir o número de carros, ao longo do tempo se aumenta ainda mais não só o número de carros, como também o número de carros per capita. Este fator complica ainda mais o problema e faz com que o rodízio seja uma medida quase impossível de ser extinta. É quase um caminho sem volta.
Não acredito que em 2009 se pense em adotar exatamente a mesma política adotada em 1996 em São Paulo, quando existem dados suficientes para comprovar que a política é ineficaz em longo prazo. Além disso, acredito no potencial da população de Florianópolis em encontrar soluções mais criativas e eficazes. Se mesmo assim adotarem o rodízio, seria uma oportunidade acadêmica única, uma chance de comparar modelos teóricos como este com o que ocorre na prática e, ainda melhor: em um sistema fechado – uma bela ilha.
Para finalizar, seguem algumas ideias para combater o problema atacando suas causas, e não seus efeitos:
Sem implementar o rodízio
Ofereça transporte público de qualidade (inclui pontualidade, cordialidade e segurança)
Torne mais fácil o uso de transporte público que a utilização de carro. A Suécia encontrou uma solução interessante implementada no programa “Vision Zero” onde através da redução drástica de limites velocidade, se ganha com o aumento na segurança e torna os tempos de deslocamento por automóvel mais longos, favorecendo assim a utilização de transportes alternativos. No livro que considero referência para a metodologia “Sterman: Business Dynamics – Systems Thinking and Modeling for a Complex World” esta solução é citada na pág. 189. Para saber mais sobre o “Vision Zero” leia a respeito, em inglês, aqui.
Promova o uso de bicicletas, torne-as não só moda como também prioridade (bike lanes, segurança, locais para que as bicicletas sejam guardadas e estacionadas com segurança)
Ofereça aluguel de bicicletas, como é feito em Paris (Vélib’) e na Alemanha (Call-a-Bike, mais a respeito no outro post de hoje).
Ofereça transporte público gratuito a turistas (2 semanas por ano?)
Crie bolsões de estacionamento fora da ilha para turistas, de custo baixo ou mesmo de graça e com transporte de qualidade para a ilha e dentro dela. Cobre caro de turistas que mesmo assim queiram dirigir na ilha (modelo adotado por NY em Manhattan).
Se mesmo assim introduzirem o rodízio
Ofereça uma alternativa para que a população possa optar em pagar uma taxa anual para se isentar do rodízio, menor que o custo de comprar e manter um segundo carro (quem sabe algo como R$1000 /ano). Desta forma se combate o “jeitinho” de forma elegante, arrecadando impostos de quem não se dispõe a utilizar outras formas de transporte. Dá também alternativas aos que de qualquer forma nunca optariam por transporte público. Invista 100% do dinheiro arrecadado em meios de transporte alternativos.
Colocamos o modelo do rodízio de São Paulo, criado com o software “iThink“, à disposição para quem esteja disposto a melhorá-lo.

Texto e Gráfico: Idéias de fora

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Uma resposta para Rodízio? Tô fora!

  1. dnakahara disse:

    Concordo LITERALMENTE com tudo que foi alertado no post.
    Moro em São Paulo e é bem isso que acontece mesmo.

    A todos um retrato da realidade do transito paulista: http://blog.orestesquercia.com.br/congestionamentos-prejudicam-saude-dos-paulistanos-e-atrapalham-a-vida-de-passageiros-e-pedestres/

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