Cicloviagem: Rio x Aparecida – 26 e 27/07/2008

Depois de anos enrolando e me enrolando, resolvi fazer minha primeira cicloviagem. Num documentário sobre a família Schürmann aonde a matriarca do clã, Heloísa Schürmann dizia que se quiseres realizar um projeto, o primeiro passo é marcar a data da partida e foi exatamente o que fiz.
 
Sempre me enganava, pois nunca me achava 100% pronto para tal, numa falsa esperança de que um dia eu estaria.
 
Enfim, marquei a data e disse a mim mesmo que dia 26 seria o dia D, iria sozinho ou acompanhado, com sol ou chuva, mas iria nesse dia. E nada, ou quase nada mudaria minha decisão.
 
 
Comentei sobre a viagem com o Leonardo que na mesma hora decidiu ir para o seu debut no meio. Várias outras pessoas também se interessaram, porém deram para trás. Vinicius (Vini) também se interessou e convenci o Vinícius Lima na véspera.
 
Com exceção do Vini, todo mundo passou a noite aqui em casa transformando-a num albergue para que pudéssemos sair o mais cedo possível.
 
*****
 
03:30 da manhã, despertador dispara, hora de levantar. Corpo ainda pesado pelo sono, porém alma eufórica pelo novo.
 
Banhos tomados, estômagos forrados, hora de prender os últimos penduricalhos na bike e partir antes do sol nascer.
 
Saindo de Vaz Lobo, seguimos em direção a Irajá para pegarmos na Dutra e encontrar o Vini em São João de Meriti. Durante esses dois dias, nossas vidas estariam nessa estrada.
 
 
Enquanto pedalávamos, o sol ia se mostrando e iluminando o dia que nascia. Fomos num ritmo bem tranquilo até passarmos pelo pedágio e fazermos nossa primeira parada para um café da manhã no posto Belvedere, logo depois de Seropédica.
 
 
Já dizia o jargão “barriga cheia, mão lavada, pé na estrada”, temos que seguir em frente…
 
Nesse momento a rodovia fica belíssima. Suas margens, durante esse época do ano, se encontram enfeitas por árvores completamente floridas que dão um toque especial na região.
 
Alguns kilometros pedalados e viria a tão temida Serra das Araras. Estigma esse desnecessário. Quem pedala, sabe por exemplo que a Vista Chinesa possui a mesma distância, porém por causa de seu aclive, se torna um pedal mais pesado. Mas retornado, eu, em minha santa ignorância, crente que após transpor esse obstáculo geográfico, tudo se tornaria fácil. Ledo engano! Depois vocês saberão o motivo.
 
Subimos cada um em seu ritmo. Vini desparou logo na frente, terminando a Serra em alguns minutos, eu e o Leonardo iamos num ritmo tranquilo e Vinícius, que era o “café com leite” do pedal ia com um metro de língua para fora, triste por ter acabado o plano.
 
A fim de temperar a sua tristeza, eis que numa troca de marcha, sua corrente não aguenta e se parte. Como todo castigo para corno é pouco (que a namorada dele não ache que estamos duvidade de sua fidelidade), ele teve que realizar o conserto sozinho para aprender (como um bom calouro em seu trote) e literalmente a meter a mão na massa, quer dizer, na graxa.
 
Problema resolvido, hora de continuar a subir, afinal ainda faltava um bom trecho da serra.
 
Depois de mais uns bons minutos de pedal, pausa para respirar um pouco, beber uma água de coco e comer uma bananinha.
 
Mais alguns outros tantos minutos e eis que finalmente chegamos ao fim da Serra das Araras. Lá estava o Vini nos esperando há algum tempo.
Pausa para mais um descanso e algumas fotos.
 
Nesse momento, Vinícius “calouro” já pensava em desistir. Reclamava do cansaço e fome. Decidimos então pedalar por mais alguns kilometros até encontrar um local para o almoço.
 
Cruzamos por Ribeirão da Lajes, em Piraí e então chegamos em Barra Mansa. Encontramos um estabelecimento sozinho na estrada e que tinha um preço bastante convidativo.
 
O preço era bom, a refeição nem tanta. Mas como a fome tempera qualquer comida…
 
Bem, saimos satisfeitos, ou quase. A garçonete disse que o “PF” dava para duas pessoas, pois vinha com uma porção considerável. Eu e o Vini optamos por dividi-lo. Vi, ou melhor, senti no estômago que realmente dava para duas pessoas, desde que fossem duas mulheres anoréxicas. Completei o espaço restante com um sorvete de sobremesa.
 
Na hora da partida, presenciamos um momento infeliz. Um cachorro foi atropelado na nossa frente. Karma? Efeito borboleta? Bem, vamos voltar alguns minutos no passado.
 
Ao lado do restaurante tem um borracheiro aonde dois cachorros dormiam tranquilamente como deve ser uma tarde de sábado. Eis que surge uma figura de outro planeta, com uma roupa colorida, colada no corpo, em cima de uma bicicleta cheia de tralha, ou seja, eu. Não deu outra, ao ver aquilo, os cachorros partem em direção a minha pobre perna (é incrível o magnetismo entre vira-latas e ciclistas. Está aí um ótimo tema para uma tese de física). Detalhe que na maioria das vezes, fazem pelo puro prazer de assustar e correr atrás de uma presa.
 
Bem, porém dessa eles sairam na pior. Após o susto, eles pararam para “rirem” da minha cara. Momento infortúnio, pois um carro que se encontrava parado, dá a partida atropelando um dos cachorros. Não o matou, porém o feriu gravemente, pois uma de suas rodas subiu sobre o quadril, possivelmente ocasionando uma fratura do mesmo ou num menor grau, porém não menos infeliz, somente fratura de fêmur ou deslocamento.
 
Por isso a pergunta acima. Karma? Efeito borboleta? Talvez se eu não estivesse ali, nem o caminhão, muito menos eles corressem atrás de mim, nada disso teria acontecido. Mas enfim, deixemos esse papo filosófico/metafísico para outro momento.
 
Nesse trecho da Dutra, o relevo volta a ser um pouco mais plano, sendo mais confortável o pedalar. Do lado direito da rodovia vamos margeando em diversos momento o lago represado pela Light dando uma certa tranquilidade ao local e um certo ar bucólico.
 
Em Barra Mansa já reinicia um sobe-desce sem fim, cansativo, porém recompensado com uma vista lindíssima que só quem está numa bicicleta pode parar, observar, ouvir os sons, sentir os cheiros e realmente experimentar cada sensação do momento. Imagens dignas de calendários.
 
Numa dessas subidas e descidas é que aconteceu o maior problema da viagem. Vini ia bem na frente, logo seguido por mim, enquanto Vinícius e Léo iam atrás parando e fotografando. Numa das muitas descidas, os dois últimos se trombam, Léo perde o controle e cai amassando completamente sua roda dianteira e destruindo a câmara de ar. Felizmente, fisicamente ele só teve umas escoriações e uma dor pelo choque, porém emocionalmente abalado, pensa em desistir. Quase um fim para sua jornada.
 
Nesses momentos, o companheirismo fala mais alto. Hora de mover mundos e fundos para solucionar o problema.
 
Vini segue para a cidade mais próxima a fim de encontrar uma loja aonde pudéssemos comprar uma nova roda, eu tento em vão consertar a roda. Peço ajuda a Raquel, no Rio para encontrar na internet alguma loja de bicicleta em Resende e me passar por mensagem os contatos. Cria-se uma rede de suporte
 
Eis que Vini consegue um carinha que venderia a roda usada dele. Vinícius aciona o socorro da Dutra para levar o Léo com a bicicleta até o ponto, enquanto iríamos levando a roda quebrada para a troca.
 
O socorro deixa o Léo alguns kilometros depois, numa parada de ônibus entre Volta Redonda e Resende. A noite começa a cair enquanto tentamos resolver o problema.
 
Compramos a roda, pegamos as bicicletas e fomos ao encontro do Léo. O frio na estrada já estava cortante e o breu sobre nós. Hora de acender todos os piscas, faróis e qualquer utensílio que chamasse a atenção no escuro.
 
Encontramos o Léo na parada, tomamos um café para combater o frio lá fora, trocamos a roda e hora de correr. O tempo passava, o frio batia, a fome apertava, o cansavo chegava com tudo. Tinhamos que correr para Resende logo e arrumar um local para passarmos a noite.
 
Alguns cicloturistas, que já tinham feito essa viagem, nos indicaram um motel em frente ao Graal Resende e para lá que nós fomos.
 
Chegando lá, felicidade plena. Claro que o lugar não chegava a ter uma estrela se quer, mas já bastavam a cama com um cobertor e chuveiro quente. Tudo que precisávamos após um dia desse.
 
Banho tomado, nos encontramos no estacionamento do motel. Quando homens estão juntos, só sai besteira e o primeiro assunto foi: “Não tem filme pornô no motel!”
 
Incrível como todos fomos ver a mesma coisa!
 
Ninguém falou do banho quente ou então aonde iríamos jantar, mas sim que não tinha filme “educativo” no motel. Como assim? Rimos e zombamos de nossa descoberta e fomos jantar.
 
Encontramos um lugar para jantar, uma comidinha a quilo. Bastante suspeita por sinal. Vinha com uma promoção, coma tudo e ganhe uma salmonelose! No way!
 
Vamos para o Graal!
 
Quem conhece, sabe que os preços lá não são nada convidativos. Porém, para nossa surpresa, tinha um rodízio de pizzas a R$13,99!!! Era lá que iriamos realizar nossa orgia gastronômica.
 
Quer dizer, tentariamos.
 
Vini capotou após algumas fatias de pizza.
 
 
Eu seguia pelo mesmo caminho.
 
Fome saciada, voltamos para o motel repôr um pouco das energias e encarar o dia seguinte que começaria bem cedo.
 
 
Ah, ao chegar no quarto, o filme “educativo” estava passando… Na manhã seguinte, descobri ainda passava o mesmo filme na televisão, ou seja, era um DVD que ficava repetindo a noite toda.
 

Após uma boa noite de sono, hora de retornar à estrada. Vinícius decidiu retornar para o Rio. Ficaríamos eu, Léo e Vini para completar o restante de Resende a Aparecida.

Nos despedimos do Vinícius e as 07:00 já estávamos novamente na estrada. Com apenas algumas besteiras forrando o estômago, decidimos que só parariamos uns 20km depois, para então tomarmos um café decente, ou pelo menos café, porque de decente, não tinha nada. Ainda bem que não tivemos nenhuma infecção intestinal!
 
 
Talvez esse trecho seja o mais cansativo da viagem, fisicamente e emocionalmente. Fisicamente porque começa uma sequência de subidas e descidas que se extendem até Aparecida. Emocionalmente porque você começar a pensar que logo após a subida, descerá um pouco e virá outra subida.
 
Eis que numa dessas descidas atingimos o limite entre o estado do Rio de Janeiro e São Paulo (iupi!). É incrível, mas ver aquela plaquinha indicando o início do estado deu uma reanimada no espírito, pois vimos que se conseguimos sair de um estado para o outro, conseguiriamos ir até aonde nossos sonhos permitissem. Aparecida estava mais próxima!
 
Minha bicicleta agora é um veículo interestadual!
 
Cruzamos Queluz. Terminando a cidade. No trecho entre Queluz e Cruzeiro, só existem subidas, subidas intermináveis que terminavam em outras subidas. Em alguns instantes imaginei que Aparecida era a cidade mais alta do país, pois não parava de subir nunca.
 
Dentre todas as subidas, existem duas quase que consecutivas que dá vontade de chorar ao vê-las. Nesse momento relembro da Serra das Araras e digo que esta é moleza.
 
 
Essas duas subidonas são bem movimentadas, não possui uma sombra e o sol estava de fritar ovo em asfalto.
 
Em um instante, tem uma placa dizendo “Longo trecho em declive”. Pensei por alguns segundos numa felicidade eterna, que poderia descansar um pouco e ganhar alguns kilometros com essa descida. Ledo engano. De longo, não tinha nada. Se chegasse a 3km, era muito. E dou um doce para quem descobrir o que tinha após esse trecho de descida.
 
 
Sim, outra subida. Tão íngreme quanto a anterior. Em alguns momentos tive vontade de praguejar, mas como quem está na chuva é para se molhar… vai uma sequência de pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta. Pedala mais um pouco e empurra novamente e vai assim até ultrapassar esse obstáculo.
 
Terminando a descida, pausa para descansar as pernas, pulmões, coração e comprar água. Tive a maldita idéia de comprar um doce de amendoim, desses de tendinha.
 
 
Não sei se foi o doce, o calor intenso ou uma perda líquida e sais mineiras abundante (xixi). Ou associação de tudo, só sei que faltando uns 20km, minha pressão cai bruscamente.
 
Paramos num posto de gasolina abandonado, deitei-me um pouco na sombra até normalizar o estado, peguei um salzinho do kit de 1ºs socorros (Valeu Alberto!!!) e em 10min fiquei renovado para prosseguir. Decidimos almoçar na próxima oportunidade.
 
Já novamente na estrada, vimos a placa: Graal – 7km. Pedala mais um pouco, Graal – 5km. Mais um pouco, Graal – 3km. Maldito lugar que nunca chega!!!
 
Ufa!!! Parada para o almoço!!! Faltando apenas 10km para chegar em Aparecida. Últimos ajustes nas bicicletas. Léo vinha recalibrando o pneu a cada posto, pois estava com um pequeno furo que permitia pedalar assim mesmo. Recalibramos todas as bikes, prendemos as tralhas e hora de pedalar até chegar na basílica. Ou quase!
 
Faltando apenas 1km, final da última subida do dia, pneu do Vini fura.
 
 
Consertamos rapidamente para chegarmos o mais breve possível na basílica e termos tempo para pegarmos o último ônibus para o Rio.
 
Câmara trocada, vamos com tudo que a cidade está bem próxima!
 
 
Eis que em alguns minutos de pedalada, finalmente chegamos ao nosso destino. Aparecida!
 
 
O que ganhei com a viagem?
 
Momentos com amigos, momentos divertidos, outros não. Experiências novas. Novos lugares, novas sensações. Um coisa é certa, me tornei mais seguro, pois vi que tudo que quero, posso. Problemas existem, como os que encontramos, o segredo é saber como lidamos com eles.
 
Existem coisas que só se descobre vivendo.
 
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”
(Amyr Klink – Mar Sem Fim)
 
 

http://images.multiply.com/multiply/slide-show.swf

Anúncios
Esse post foi publicado em Cicloturismo. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Cicloviagem: Rio x Aparecida – 26 e 27/07/2008

  1. Cara, que massa essa viagem! É sempre bom dar umas bandas diferentes!!

    Tenho uma pergunta. Vi que vc (ou um de seus amigos) tem uma GT. Tenho uma modelo Avalanche e sempre rola o problema do bagageiro. Que bagageiro vc usou ali? Resistiu legal a viagem toda?

    Abraço e boas peladas!
    José.

  2. Andrevb disse:

    Muito, muito legal sua narrativa. Até me emocionei. Valeu mesmo.

  3. Lucya M.M disse:

    Nossa! Estou encantada com a história e narração.Obs:Sou a namorada do Leonardo e ele me presenteou com essa história fascinante.Parabéns à vocês.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s