Florianópolis x Garopaba

Nesse mês de janeiro de 2009 fui a Garopaba fazer um curso de formação de professores de Yoga. Optei por começar o meu sadhana pedalando sozinho de Floripa à referida cidade. E esse pedal, apesar de curto, foi puxado.

Dia 03, as 08:30 cheguei no aeroporto de Florianópolis. Estava virado. Não dormi desde as 7:00 da manhã do dia anterior. Tirei o dia para resolver as coisas da viagem, arrumar, bicicleta, mochila… E o vôo iria sair do Rio as 03:30. Tinha que estar no aeroporto as 02:30, despachar bike… dormir? Para quê? Vamos aproveitar esse tempo para finalizar o vídeo da viagem.

Enfim, chego em Floripa, a Aline estava me esperando. Ela e a chuva!

A principio ela iria me buscar de bike também, porém por causa da chuva, foi de moto. Me passou as coordenadas e fui pedalando sozinho até a casa dela, em Biguaçu. Passaria a noite lá e depois seguiria em frente.

Falam tanto do “logo ali” do mineiro, porém no sul, uma informação te deixa mais perdido que tudo. Aline jura que me deu um ótimo mapa, mas me perdi diversas vezes e ela disse que era para eu passar pela ponte da esquerda (proibida para ciclistas), porém não me disse que tinha uma ciclovia escondida nela. Imaginem a cena, eu rodando, no início da ponte, buscando uma maneira de passar por ela, para chegar ao continente. Estava literalmente ilhado. Depois de uns 15min, que encontro a ciclovia.

Todo o pedal segue pela BR101 até Biguaçu. Essa é segunda vez que pego essa estrada aqui no Sul. Já peguei de moto, fazendo Curitiba x Joinville (por sinal, com a Aline também) e agora essa vez. É incrível a diferença dessa estrada no sul para o que encontramos aqui no estado do Rio de Janeiro. Em pelo menos 99,9% da estrada está em ótimas condições, asfalto liso, iluminada, sem mencionar a presença das “marginais”. Enquanto aqui… melhor nem falar para não sentir vergonha! No trecho para Garopaba, a qualidade muda um pouco. Mais a frente falarei sobre.

Pedalando sob uma chuva chatinha, vamos em frente. Lama, sujeira… amigos de qualquer ciclista. Felizmente nenhum pneu furado ou corrente partida, apenas um ajuste básico de freios.

O pedal até Biguaçu foi tranquilo até demais. Tanto que após algumas “pernadas” (gíria local para designar distância), chego na casa da minha anfitriã.

Como sempre, fui muito bem recebido pela família toda. Por sinal, sua mãe faz um pão caseiro… que delícia! Não conseguia parar de comê-lo.

Fofocas em dia com direito a filme, pizza e cerveja!

Na manhã seguinte era para eu partir cedo em direção a Garopaba, porém a preguiça, a hospitalidade e um pão caseiro não me permitiram sair tão cedo. Quando consegui voltar à estrada já era quase 12h.

Tive a companhia da Aline durante os primeiros 20km da BR101, sentido Florianópolis x Garopaba. Pegamos vento contra o tempo todo. E não era um simples ventinho… no melhor carioquês: “Estava sinixxxxxxxtro!”.

Ainda bem que ela só fez esse início da viagem. Não que eu não quisesse a companhia dela, mas é porque depois o tempo virou de tal maneira. De todos os pedais que fiz (tudo bem, não foram muitos), este, sem dúvida, foi o que mais me deu insegurança, porém ao mesmo tempo foi o que me tornou mais seguro ao final. Como assim? Deixa pra lá. Não vá tentar entender-me. Já disse Clarice Lispector: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Voltando ao pedal, como eu ia dizendo o tempo virou e começou a cair uma chuva torrencial. Simplesmente não dava para ver nada a frente. Nesse momento a descarga adrenérgica foi tão intensa que senti coração na boca. Tudo bem, sei que é uma metáfora, mas realmente estar com uma bicicleta, com mais de 15 de mochilas, ventos fortes, chuvas intensas, uma rodovia sem acostamento em alguns trechos, esburacadas em outros e sozinho não é mole. Minha resposta de luta e fuga foi colocada a prova. Fugir não não dava, eu tinha que seguir em frente, tinha o curso. Então só me restava lutar. Fiquei super inseguro em pedalar sozinho em tal condições. E se me acontecesse algo? Estaria f…

Durante todo tempo de chuva, pedalei em mula bandha (contração esfincteriana no yoga), afinal um motorista só vê a bicicleta depois que a acerta. Porém não sei se Deus, a sorte ou quem quer que seja estava ao meu lado, só sei que atrás de mim houve um acidente ou qualquer outro problema desconhecido por mim e tudo o trânsito ficou parado. Pedalei por quase 1 hora sem passar qualquer veículo por mim. Todos estavam presos lá atrás e eu sozinho pedalando na estrada.

O pedal é relativamente tranquilo. Não há muitas subidas e as poucas existentes são tranquilas, até mesmo para quem carregava o peso que eu carregava. Nem reclamava, e olha que quem me conhece sabe que ODEIO subidas.

Pedalar no sul é outra coisa. Uma geografia totalmente distinta da que estou acostumado. Cheiros, visuais, gostos… tudo novo. E numa dessas novidades, uma não foi tão boa para mim. Nessas casinhas que ficam na beira de estrada, vi um porco amarrado a uma mesa e sendo assassinado. Sim, para mim é assassinato, afinal estão ceifando uma vida como qualquer outra, como de qualquer outro ser que sofre, sente dor, que grita e que deseja viver. Logo eu, vegetariano, tive que presenciar tal cena. Não me contive, enquanto pedalava, algumas lágrimas rolavam pelo rosto. Enfim, ainda existem ignorantes nesse universo que acham que se não comerem carne ficarão doentes ou pelo simples fato de que “comer carne é chic”, basta ver o crescente número de carnes nobres que surgem (javali, avestruz, jacaré…) Bem, retornemos ao pedal!

Devido as condições metereológicas e um ritmo de pedal bem tranquilo, pedalei os 110km de Biguaçu a Garopaba em aproximadamente 5h de estrada. Basta pegar a BR101 direto, sentido Porto Alegre. e quando chegar no trevo de Garopaba, pegar a SC434.

Crente que logo estaria na Montanha Encantada, é aqui que minha via crucis começa. A Montanha fica num bairro chamado Encantado, até aí tudo muito lógico. Porém algumas ruas não possuem placas e o pior, ninguém conhecia a rua de acesso por nome. Fiquei girando que nem peru tonto pela cidade e ninguém. A única informação obtida já estava desatualizada, a loja de materias de construção já não existia mais. Tinha quer sair logo dessa situação, subir para o hotel e fazer meu check-in a tempo, pois tudo iria fechar. Já estava vendo a hora de dormir no mato. Ainda bem que tinha levado meu saco de dormir.

Depois de algum tempo, na verdade quase duas horas, pergunto num bar e finalmente o dono conhece e me dá as informações precisas. Ufa!!!

Para quem quiser ir e não quiser sofrer como eu sofri. Aqui vai a dica de como chegar na Montanha Encantada:

Seguindo na SC434 em direção ao centro, quando passar pela placa mostrando a entrada da Praia da Barra haverá uma lombada e logo depois dela uma padaria a esquerda e que fica de esquina. Logo depois da padaria tem um descampado, basta entrar na primeira rua depois dele e seguir em frente. Aproximadamente 2km chega-se na Montanha Encantada. Fácil, pelo menos agora.

“Pelo que, realiza o teu trabalho para que aconteça o que deve acontecer, mas age sem apego nem interesse. Assim atingirás o Ser Supremo e entrarás na perfeita quietação” – Gita 3.19

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